O diabo mora nos detalhes – sobre algumas sutilezas do discurso ativista

Eu sou o tipo de pessoa que gosta de atentar para as sutilezas dos discursos. A minha formação, a minha profissão, a minha vocação e a minha escrita poética pedem e dependem disso. E cada vez mais percebo que alguns detalhes despercebidos nos discursos atravessam o tempo e tem resultados devastadores, para os quais muitas vezes eu só posso dizer “eu avisei” e muitas vezes saio na história como se fosse vidente. Não sou, óbvio. Só acho que a nossa fala diz muito mais sobre como andamos no mundo do que queremos ver.

E é por isso que quero olhar para algumas sutilezas, algumas pequenas diferenças de posições possíveis dentro do ativismo que andei percebendo esses dias, transitando em algumas conversas e vendo as movimentações nas mídias sociais:

Noto que existe uma pequena-grande diferença entre:

– Se colocar no lugar do grande outro que pode falar em nome de toda a classe pela qual se pretende falar (ciclistas, mulheres, gays, negros, etc), deslizando assim prum discurso falacioso de autoridade. Versus falar a partir da própria experiência individual, ou no máximo pela experiência individual de pessoas semelhantes, que de fato é um aspecto soberano quando estamos tratando de construir um discurso mais humano e diverso, mas que tem o próprio limite de ser individual, ou seja, de não ser generalizante, de ser o muito e o pouco que é: um ponto de vista.

– Falar em certo e errado como imposição de uma nova norma autoritária a seguir, à qual os demais devem se adequar Versus construir em conjunto um discurso que tenha sentido, baseado nas experiências individuais dos envolvidos, que seja capaz de aceitar a diversidade, evitando ser centralizante ou homogeneizante, com o destino de empoderar (e não anular) cada indivíduo – mesmo que esse indivíduo não pertença à classe que você defende.

– Falar em desconstrução como se se tratasse de constranger os indivíduos a corrigir e adequar a nossa forma de aproveitar, de tirar proveito, de gozar da vida Versus questionar as raizes, motivos e jogos de poder por trás da nossa forma de estar no mundo, com a intenção de promover novas formas de se relacionar e de intercambiar poder (estamos, sim, falando de poder) de uma forma mais proveitosa, prazerosa, interessante, para todas as partes.

– Invalidar as questões do outro que apresenta posturas que consideramos inaceitáveis, impondo as nossas próprias questões Versus partir da nossa voz e da nossa experiência pessoal para construir limites nas relações sem ter que silenciar ou invalidar o outro neste processo.

Se o ativismo que buscamos se trata de uma luta de poder no campo do discurso, com o sentido de promover relações menos violentas e mais humanitárias, é trabalho dos próprios ativistas escutar, reconhecer e reposicionar (odeio o termo desconstruir) a própria fala e ações, buscando não repetir a mesma imposição de poder que se busca questionar. Existe um pequeno-grande salto entre dialogar e constranger.

A coerência que procuro é uma coerência de sentido, quer dizer, que esteja alinhada com o que sinto sobre as coisas, e não uma obsessão por ordem e homogeneidade.

De modo que meu ativismo, ao passo que anda cada vez mais chato, acaba ficando também cada vez mais carinhoso. Estou curtindo este caminho, apesar de às vezes estar difícil encontrar parceiros nele…

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Performances sobre parcerias amorosas e parcerias abusivas

Performance 1 – Rest Energy, Marina Abramovic e Ulay

Acho performances em geral especialmente boas em ilustrar dinamicas de relacionamento: conseguem colocar de forma sensível coisas sobre as quais é difícil dizer.

Eu estava recentemente vendo uma performance da Marina Abramovic que me chamou a atenção. Já conhecia essa performance por uma foto que havia rodado a internet como uma metáfora do machismo estrutural nos relacionamentos, mas ver essa mesma performance em vídeo na exposição me chamou a atenção para novos detalhes que eu jamais havia visto online.

A performance dura uns três minutos; ela começa a performance entregando o arco e a flecha para ele (essa parte nao achei online). Os dois lados ao mesmo tempo se “entregam” (inclinam o corpo pra trás) e se esforçam em sustentar a tensão sem deixá-la estourar (o arco com a flecha pronta para tiro). Há um porém: a flecha está apontada só para um lado. Se qualquer um dos lados “falhar”, a flecha se solta e atinge o pescoço (ou o peito, nao entendi bem) de Marina. A performance poderia ter sido igualmente pensada para equalizar isso, com flechas apontadas para ambos os lados, mas não foi – e acho que não à toa.

Para ver um pedaço da performance, clique aqui.

Vamos por partes:
– A entrada na parceria:
Acho bastante relevante que a própria Marina entregue para o parceiro a arma que pode matá-la. É algo que me fala de confiança e entrega, e ao mesmo tempo, da linha fina e facilmente borrável entre a entrega amorosa versus a entrega para o uso (e abuso).
Sobre como nos entregamos para o abuso do outro na esperança de receber amor. E como esse ato pode partir de nós mesmos, e não ser explicitamente exigido ou imposto pelo outro. Pois afinal, se a recompensa por se entregar é ser amad@, então “vale a pena”, mas se o outro exige uma moeda de troca pelo amor, (o nosso uso – ou abuso), talvez não seja amor, e compramos gato por lebre. Ou será que supomos que o outro que exige essa moeda?
Pode-se ler também daí que a sociedade cobra de uma das partes- por exemplo, da mulher – uma entrega muito mais radical; por outro lado, isso exigiria uma responsabilidade quase insustentável nas mãos da outra parte (por exemplo, o homem): a de ter a vida do outro nas mãos.
Podemos também abstrair os gêneros e pensar apenas nas posições atuadas pelos dois performers, para buscar entender em que momentos entramos consentidamente em relações não conjugais que também atravessam as mesmas questões. Quando colocamos a responsabilidade pela nossa integridade nas mãos do outro? Ou quando assumimos essa responsabilidade pelo outro? Onde é a fronteira que separa as responsabilidades de um e de outro, onde são as zonas compartilhadas, onde são as zonas nebulosas? Até onde vai a entrega e a confiança por amor, e onde passa do limite?

– O conflito que sustenta a parceria:
À exceção do momento inicial, ambos são igualmente ativos na performance. Ambos estão inclinados para trás numa atitude de entrega e, de maneiras diferentes, de vulnerabilidade.
Me chama a atenção que é um arco e flecha, como a que o cupido usaria, e não outra arma, como um harpão, por exemplo.
Poderia ser uma metáfora de amor? Se é amor, é de um tipo muito específico. Um tipo que exige extremo controle, autocontrole e vigilância para existir e para evitar um final catástrofico.
Um amor com aspectos que eu pessoalmente consideraria bastante desejáveis: que está completamente presente, que está profundamente consciente de si e do outro. Um amor que desafia os parceiros, que os coloca a trabalhar juntos. Mas também, por outro lado, há um amor que não pode faltar, que não pode falhar, não pode relaxar. Um amor que não pode dormir, e talvez num extremo, um amor que mal pode pulsar?
O que é irônico, dado que o nome da performance é exatamente “rest energy” – “energia de repouso”, energia potencial; a capacidade de pulsar.

– O pulso:
Uma das grandes diferenças que se vê no video e que passa despercebida na foto é exatamente o pulsar do casal, por onde se percebe que o que eles estão fazendo é extremamente difícil. O som da performance é às vezes tão ofegante que se pode pensar numa cena de sexo. Em que momentos entramos em relações sexuais que têm sabor de entrega contra uma flecha apontada em nossa direção? Ou em que momentos preferimos o prazer do conflito que pode ferir ao outro e a si mesmo do que o desprazer da desconexão, da solidão, do isolamento?

– A catástrofe iminente:
Existe vulnerabilidade, mas ao mesmo tempo, qualquer falha ganharia dimensões catastróficas; um dos lados morreria, o outro não. “Morreu por amor” faz lembrar a narrativa central do catolicismo: o mártir que eleva o outro pelo próprio sacrifício amoroso. Eleva mesmo?
Pois afinal, aqui pode-se pensar em uma dupla catástrofe: enquanto o peso da morte recai todo para um lado, a culpa pela falha recai toda para o outro lado. O eixo da relação é o conflito, que quando arrebenta, derruba as duas partes. Como Romeu e Julieta.

– Não sei como a performance termina.
Sei que termina sem morte, dado que ambos os performers estão vivos. Mas testei três possibilidades (sem arco e flecha óbvio).
– Uma das partes dá um passo para frente: isso faz a outra parte cair. Não sei que efeito teria com um arco e flecha mas suponho que isso faria a flecha atirar. Pode ou não acertar a outra pessoa.
– Uma das partes dá um passo pra trás: isso mantem a flecha tensa mas restaura o equilibrio de uma das partes, que poderia então desarmar a flecha.
– As duas partes dao um passo pra frente ou se puxam mutuamente: isso desarma a tensão da flecha e libera as duas pessoas.

Isso me faz pensar em quais são as estratégias que temos para lidar com relacionamentos amorosos que se tornam eventualmente conflituosos: em como resolvemos conflitos em geral, em como conseguimos, apesar da diferença de posição, estabelecer saídas em parceria para ganho mútuo, ou sobre como nos protegemos quando não é possível tal acordo.

Vale lembrar que eventualmente, de uma forma ou de outra, a performance termina, e que é possível estabelecer-se (ou não) o mesmo tipo ou novos tipos de parceria entre os mesmos performers ou performers distintos. De que formas tendemos a repetir parcerias que reencenem essas mesmas questões ou como conseguimos navegar pelo mundo estabelecendo outras parcerias com bases diferentes?

Comunicação não violenta e política

Desde pequena ouço a seguinte pérola da sabedoria popular, que é uma ideia que me soa absurda mas que, volta e meia, em épocas de crises, polêmicas, decisões, parece ter lá seu fundinho de verdade:

“Religião, futebol e política não se discutem”.

A ideia de que existem temas tabus que não podem ser discutidos não entra na minha cabeça. A experiência humana é um negócio complexo demais para que nos abandonemos cada um à sua própria sorte em assuntos que nos tocam tão fundo.

Acontece que, quando se discutem esses assuntos, frequentemente o que está sendo discutido é outra coisa, que pega ainda mais fundo nos sentimentos das pessoas e realmente não ajuda na tarefa de conseguir tocar nesses temas sem machucar ou nos sentir machucados.

Se discute o seguinte: “Você é digno da minha confiança”?

Não à toa, os candidatos em campanha se agarram sobre essa necessidade que temos de nos sentir seguros em confiar uns nos outros e atacam a índole do adversário. Você é corrupt@, mentiros@, levian@, confus@, agressiv@, incompetente, você promete e não cumpre, o que você fala é um absurdo – etiquetas esfregadas na imagem do oponente até que colem, acusações respaldadas em dados mais escorregadios do que sabão e absolutamente recortados de seu contexto, contexto esse que é complexo e que precisa ser analisado com cautela. Tomando a parte pelo todo, tal qual uma camisa de futebol poderia falar pela complexidade de um ser humano.

Essa discussão sobre política, que não é sobre política, nem futebol, nem religião, mas sobre quem pode fazer parte do nosso círculo de confiança, não se restringe aos debates na televisão, mas toma conta das nossas conversas no cotidiano, nas redes sociais, nos jornais online, no trabalho, nos bares e nas reuniões de família.

Quanto mais se aproxima um momento de decisão, quanto mais tememos pela nossa segurança e se produz uma sensação de escassez – escassez que é muitas vezes imaginária – quanto mais temos medo que o grupo daqueles em quem não confiamos nos subjugue de alguma forma, ou até mesmo, quanto mais estamos cansados de nos defender e disputar espaço, mais a discussão se simplifica a argumentos parciais e imediatos, e mais se intensifica. Em algum momento, os projetos de governo se resumem a uma briga polarizada, uma peleia entre “ladrões”, “vagabundos”, “canalhas”, “playboys”, “coxinhas”. Pra dizer o mínimo das ofensas.

Quanto mais a discussão se concentra no caráter dos envolvidos, e menos sobre os comportamentos, atitudes e condições que gostaríamos que fossem mudadas, mais tendemos a nos proteger e, portanto, atacar de volta. Ou seja: a violência escala. E onde a violência escala, a liberdade de expressar-se e de construir ideias em conjunto torna-se escassa, distanciando de qualquer conceito de democracia.

É mais fácil delegar a responsabilidade pelo crescimento da violência ao outro, e colocar-se em um papel de vítima que não tem outra opção senão “defender-se”. Mas e se no lugar disso, o que aconteceria se decidíssemos nos defender de outra forma que não reagir imediatamente ao sentimento de dor e seguir agindo de forma a perpetuar a violência, mas pelo contrário, escolher fazer outra coisa com os comentários que nos agridem.

E o que seria essa outra coisa? Seria baixar as armas e ouvir o que o outro precisa. Ou pelo menos tentar ouvir, quando essa necessidade não está dita claramente. Ouvir a necessidade do outro sem desqualificá-la. Seria deixar de olhar a opinião política do outro como uma condição para confiar nele, e em vez disso, confiar que suas opiniões partem de necessidades humanas. Como as nossas necessidades. E se bobear, talvez as mesmas necessidades.

Seria reconhecer quais são as nossas próprias necessidades – será nos defender? será proteger nossos amigos? será não levar desaforo pra casa? que outras? – e assumir outras formas de atender a essas necessidades que não sejam através de um novo ataque, de uma nova desconfiança, de deixar novamente de ouvir as necessidades do outro.

É um salto, é um ato de fé. É, antes de tudo, uma decisão. E uma decisão que alguns podem considerar arriscada, mas que, no outro lado da balança, pode tornar possível alguns outros ganhos importantes:

Como conhecer melhor como funcionam as outras pessoas e de que coisas necessitam. Reconhecer as semelhanças e diferenças entre a própria forma de pensar e a do outro, e entender mais nuances além do preto e branco.Aprender a discutir de uma maneira mais precisa e apurada que não atropele essas nuances. Aprender a argumentar de uma maneira mais clara e limpa, cada vez mais livre de falácias. Descobrir formas cooperativas de alcançar as necessidades de todas as partes. Quando não for possível, aprender a concordar em discordar sem que isso coloque em risco os demais vínculos. Aprender a rever as próprias estratégias  Ganhar um entendimento mais amplo e aprofundado de como funciona a política, a economia, a sociedade. Cultivar um sentimento de confiança mútua e de segurança nas comunidades onde convivemos.

Me parece um premio que merece algum risco, e que não vejo como seria possível atingir se não partirmos desse salto.

35 passos práticos que os homens podem dar para apoiar o feminismo

Traduzido do original por Georgia Martins Faust e Tarsila Mercer de Souza: http://m.xojane.com/issues/feminism-men-practical-steps

No Facebook, um amigo recentemente linkou para um artigo chamado 20 Ferramentas para que os Homens Favoreçam a Revolução Feminista. Embora ele tenha gostado da lista, ele (corretamente) observou que a maioria das sugestões eram bastante acadêmicas. O amigo em questão, como eu, é um acadêmico, então essa observação não é para ser uma acusação ao artigo original. Só que ferramentas práticas e ferramentas acadêmicas podem ter lugares diferentes no mundo.

Os comentários dele me incentivaram a criar uma lista de ferramentas mais práticas. A maioria dos homens – em particular homens que se beneficiam de múltiplas formas de privilégio estrutural – fazem muitas coisas que direta e indiretamente contribuem para uma cultura de desigualdade de gênero. Até mesmo homens que apoiam o feminismo em teoria podem não ser tão bons em aplicar o feminismo em suas práticas diárias.

A lista traz sugestões de algumas ferramentas práticas que todos os homens podem aplicar em seu dia-a-dia para promover a igualdade em seus relacionamentos com mulheres, e para contribuir com uma cultura onde as mulheres sintam-se menos sobrecarregadas, inseguras e desrespeitadas.

Parte de viver em uma sociedade patriarcal é que os homens não são socializados para refletir sobre como seus hábitos e atitudes prejudicam as mulheres. Essa lista foi feita para incentivar os homens a pensar mais conscientemente e pessoalmente sobre os efeitos diretos e indiretos que eles tem sobre as mulheres, e para pensar mais sobre como eles podem contribuir com o feminismo através de suas práticas diárias.

A lista não pretende ser definitiva nem exclusiva. Certos itens da lista vão se aplicar a alguns homens mais do que a outros, mas se você é um homem e humano, eu garanto que há pelo menos uma área da lista onde você possa melhorar. Caso você ache que esquecemos alguma coisa, me diga! Se você acha que algum ponto na lista é problemático, vamos conversar a respeito!

1. Faça 50% (ou mais) do trabalho doméstico

Você precisa fazer a sua parte do trabalho doméstico o tempo todo, por sua própria iniciativa, sem procrastinar, sem ser pedido, sem inventar desculpas. Reconheça que seus hábitos domésticos e suas idéias internalizadas sobre trabalho doméstico não-remunerado têm um enorme viés de gênero e beneficiam imensamente aos homens, e aceite que é sua responsabilidade lutar contra isso. Se feminismo é a teoria, lavar a louça é a prática. Na próxima semana, observe quanto do trabalho doméstico você faz quando comparado com as mulheres que moram com você e observe se essa divisão é equitativa.

2. Dê 50% (ou mais) do suporte emocional em seu relacionamento afetivo e amizades.

Reconheça que mulheres são desproporcionalmente responsáveis pelo trabalho emocional e que ser responsável por isso tira tempo e energia de outras coisas que elas consideram satisfatórias.

3. Consuma produtos culturais produzidos por mulheres.

Seja lá quais forem seus interesses – cinema Francês, astrofísica, baseball, ornitologia – certifique-se de que as vozes das mulheres e os produtos culturais das mulheres estejam representados naquilo que você está consumindo. Se não estão, se esforce para buscá-las.

4. Dê espaço para as mulheres

Muitas mulheres andam por aí – especialmente à noite ou quando sozinhas – sentindo-se ameaçadas e inseguras. Estar em proximidade física com um homem desconhecido pode exacerbar essa sensação. Reconheça que esse medo não é tão irracional assim para as mulheres, dado que tantas de nós já passaram por perseguição ou abuso ou nos fizeram sentir inseguras por homens quando estamos em espaços públicos. Também reconheça que não importa se você é o tipo de homem que não dá motivo nenhum para ser temido, porque uma mulher na rua não tem como descobrir isso a seu respeito.

Exemplos: Se um banco estiver vago no transporte público perto de um homem, sente naquele assento ao invés de ao lado de uma mulher. Se você estiver andando em uma rua escura atrás de uma mulher andando sozinha, atravesse a rua para que ela não precise se preocupar que alguém esteja seguindo ela. Se uma mulher estiver de pé sozinha em uma plataforma do metrô, fique a certa distância dela.

5. … mas inclua-se em espaços onde você possa usar da sua masculinidade para interromper sexismo.

Exemplos: desafie homens que fazem comentários e piadas sexistas. Se você vir uma amiga mulher em um bar/em uma festa/no metrô/onde quer que seja se sentindo desconfortável com a abordagem de algum homem, tente interferir de maneira amigável para oferecer a ela uma saída caso ela assim deseje. Se você vir uma situação onde parece que uma mulher esteja em perigo quando em companhia de um homem, fique próximo o suficiente para ser uma presença física, monitore a situação e esteja a postos para chamar ajuda se necessário.

Coisas desse tipo podem ser super difíceis, estranhas e complicadas para saber como fazer, mas vale a pena tentar de qualquer jeito. Sentir-se momentaneamente desconfortável é uma troca justa para fazer com que uma mulher se sinta mais confortável.

6. Quando uma mulher te diz que alguma coisa é sexista, acredite nela.

7. Eduque-se a respeito de consenso sexual e certifique-se de que haja uma comunicação clara e inequívoca de consenso em todas as suas relações sexuais.

8. Seja responsável pela contracepção.

Se você está em um relacionamento onde a contracepção é necessária, ofereça-se para utilizar métodos que não tenham riscos à saúde da mulher (uso de hormônios, cirurgias, etc) e trate esses métodos como opções preferenciais. Se sua parceira preferir um método em particular, deixe-a ser responsável por tomar essa decisão sem questionar ou reclamar. Não faça manha sobre usar camisinha, e seja responsável por comprá-la e tê-la disponível caso esse seja o método que vocês estejam usando.

Assuma a responsabilidade financeira por qualquer custo relacionado à contracepção. Mulheres ganham menos que homens, e também precisam assumir todo o risco físico de uma gravidez. E mais, em instâncias onde a contracepção envolve qualquer tipo de risco físico, virtualmente são sempre as mulheres que têm que assumir esse risco. Como um gesto de compensação minúscula dessa disparidade, homens heterossexuais deveriam financiar todo o custo com contraceptivos.

9. Tome a vacina de HPV.

Se você for um homem jovem, tome. Se você tiver um filho jovem, certifique-se de que ele tome. Já que as mulheres são aquelas desproporcionalmente afetadas pelas consequências do HPV, por questão de justiça os homens deveriam ser aqueles que pelo menos assumam os riscos potenciais de ser vacinados. (Eu sou amplamente pró-vacinas em geral e não acredito que hajam riscos significativos, mas essa é uma questão de princípio.)

10. Tenha uma política de nomes progressista.

Se você e sua parceira mulher decidirem que a instituição do casamento é algo com a qual vocês querem se envolver, esteja aberto para que ambos mantenham seus sobrenomes. Se ter um sobrenome em comum com sua esposa é tão importante para você, esteja disposto a mudar o seu sobrenome e trate isso como uma opção preferencial à sua esposa trocar o dela.

11. Se vocês tiverem filhos, sejam pais da mesma forma

Esteja disposto a tirar licença paternidade e ficar em casa cuidando deles quando eles forem pequenos. Divida as responsabilidades de cuidado de modo que você esteja fazendo pelo menos 50% do trabalho, e garanta que esse cuidado seja dividido para que você e sua parceira ambos possam ter uma quantidade igual de tempo para brincar com seus filhos também.

12. Preste atenção e desafie instâncias informais de reforço de papéis de gênero.

Por exemplo, você está em um evento de família ou em um jantar, preste atenção se são apenas (ou em sua maioria) mulheres que estão preparando a comida/limpando/cuidando das crianças enquanto os homens estão socializando e relaxando. Caso positivo, mude a dinâmica e implore que outros homens façam o mesmo.

13. Esteja atento a diferenciais de poder com vieses de gênero explícitos e implícitos em seus relacionamentos íntimos/domésticos com mulheres… seja com a parceira, membros da família ou colegas de quarto.

Esforce-se para reconhecer diferenciais de poder estruturais inerentes baseados em raça, classe, gênero, orientação sexual, idade (e assim por diante). Onde você se beneficiar desses desequilíbrios estruturais, eduque-se a respeito de seu privilégio e trabalhe para encontrar formas de criar um equilíbrio de poder mais igualitário. Por exemplo, se você estiver em uma parceria doméstica onde você é o principal provedor financeiro, eduque-se a respeito da diferença salarial entre os gêneros, e trabalhe no sentido de dividir o trabalho e os recursos econômicos dentro de sua casa de um jeito que aumente a autonomia econômica de sua parceira.

14. Certifique-se de que a honestidade e o respeito guiem seus relacionamentos românticos e sexuais com mulheres.

A forma com que você trata mulheres com quem você tem um relacionamento é um espelho dos seus valores com relação a mulheres em geral. Não adianta abraçar a teoria feminista e tratar suas parceiras como lixo. Seja honesto e aberto sobre as suas intenções, comunique-se abertamente para que as mulheres possam tomar decisões informadas e autônomas sobre o que elas querem fazer.

15. Não seja um mero expectador quando estiver na presença de sexismo.

Desafie as pessoas que façam, digam ou postem coisas sexistas na internet, especialmente em mídias sociais

16. Seja responsável com dinheiro em relacionamentos domésticos/românticos

Saiba que se você for irresponsável com dinheiro, isso necessariamente impacta sua parceira e já que mulheres ainda ganham menos que homens em geral (e vivem mais), essa é uma questão feminista.

Exemplo: Sua dívida no cartão de crédito/desperdício de dinheiro/problema com apostas têm impacto sobre a vida econômica e o futuro dela. Compartilhe o orçamento doméstico, a declaração de imposto de renda e as responsabilidades das finanças pessoais e seja aberto e honesto sobre o gerenciamento financeiro doméstico.

17. Seja responsável pela sua própria saúde.

Homens vão ao médico com menos frequência que mulheres quando algo os incomoda, e quando eles vão geralmente é por insistência das mulheres do seu convívio. Ter uma longa vida em parceria com sua esposa significa ser responsável pela sua própria saúde, prestar atenção a qualquer incômodo e levá-los a sério. Já que somos dependentes um do outro, sua saúde a longo prazo é também a saúde a longo prazo dela.

18. Não fique secando ou faça comentários sobre mulheres (ex. mantenha a boca fechada e seus comentarios pra si mesmo)

Ainda que possa ser mais provável que as mulheres usem roupas mais reveladoras que os homens, não fique as secando só porque você quer e pode. Mesmo que você ache alguém atraente, existe uma linha entre perceber a pessoa e ser um babaca/ desrespeitoso. Isso faz com que a pessoa que recebe a secada se sinta desconfortável, assim como qualquer outra mulher que perceba que você está secando alguém ou percebam dos comentários.

19. Preste atenção ao gênero dos especialistas e principais personalidades que apresentam informações para você na mídia

Quando você estiver assistindo a um especialista na TV, lendo artigos, etc., perceba com que frequência essa informação virá de um homem, e, no mínimo, imagine o quanto uma perspectiva feminina poderia ser diferente.

20. Assegure-se de que alguns de seus herois e modelos de exemplo sejam mulheres

21. Elogie as virtudes e conquistas das mulheres da sua vida para as outras pessoas.

Nas conversas diárias e na sua comunicação em geral, fale para os outros sobre as mulheres que você conhece sob um ângulo positivo. Sugira as suas amigas mulheres para projetos, trabalhos e colaborações com as outras pessoas que você conhece.

22. Seja íntegro com os seus amigos homens (ex. não seja um “parça”)

Quando um amigo homem está fazendo algo sexista (deixando de cumprir obrigações parentais, falando mal de mulheres, secando elas, gastando dinheiro compartilhado em segredo, mentindo para sua parceira, etc), seja íntegro e diga algo para o seu amigo. Não é suficiente pensar que está errado; faça-os saber que você acha que está errado.

23. Não trate a sua esposa como uma “pentelha”. Se ela está “pentelhando”, você está provavelmente deixando algo para trás.

24. Saiba que reconhecer suas próprias opiniões e estereótipos sexistas não é o suficiente. Faça algo a respeito disso.

25. Tenha amigas mulheres.

Se você não tem nenhuma amiga mulher, descubra o porquê e faça algumas amigas. Assegure-se de que sejam relações autênticas e significativas. Quanto mais a gente se preocupa e se identifica uns com os outros, mais chance a gente tem de criar uma sociedade mais igualitária.

26. Encontre mentoras/líderes mulheres (ex. seja subordinado a mulheres)

Se você está procurando um mentor, ou quer ser voluntário de uma organização, vá a uma mulher ou a uma organização liderada por uma mulher. Saiba que há muito a aprender de mulheres em posições de comando.

27. Quando estiver em um relacionamento romântico, seja responsável por eventos e datas especiais ligados ao seu lado da família.

Lembre-se dos aniversários dos membros da sua família e eventos importantes. Não deixe para a sua esposa a responsabilidade de enviar cartões, fazer ligações, organizar reuniões, etc. É sua família, e portanto sua responsabilidade de lembrar-se, preocupar-se e contatá-los.

28. Não policie a aparência de mulheres.

Mulheres são ensinadas a internalizar normas de beleza extremamente restritivas desde quando são crianças muito pequenas. Não faça ou diga coisas que façam com que as mulheres sintam que não estão cumprindo essas normas, ou crie pressão para que elas as cumpram. Ao mesmo tempo, também não é uma resposta feminista fazer ou falar coisas que pressionem mulheres a usar seu corpo para resistir a essas normas se elas não quiserem. Reconheça que há significativas sanções sociais para mulheres que desobedecem padrões de beleza e não podemos esperar que elas ajam como mártires e aceitem essas sanções se não quiserem.

Se de acordo com seu senso estético ou ideais você acha que ela usa muita maquiagem ou maquiagem de menos, retira pêlos corporais demais ou não o suficiente, não é da sua conta como as mulheres decidem a aparência de seus corpos.

29. Ofereça-se para acompanhar suas amigas mulheres se elas tiverem que caminhar para casa a noite sozinhas… ou em um espaço público onde provavelmente elas se sentiriam inseguras.

Mas não insista em fazê-lo ou aja como se você estivesse sendo o maior cavalheiro do mundo por fazer isso.

30. Insira o feminismo em suas conversas diárias com outros homens.

Se o seu pai não faz a sua parte do trabalho doméstico, converse com ele sobre porquê isso é imporante. Se seu amigo trai a namorada dele ou fala dela negativamente, fale francamente para ele que respeitar a mulher com quem ele tem um relacionamento íntimo faz parte de ter respeito com as mulheres em geral. Tenha conversas com seus irmãos mais novos e seus filhos sobre sexo consentido.

31. Se você tem tendência a se comportar de maneira inadequada com mulheres quando você está sob a influência de drogas ou álcool, não consuma drogas ou álcool.

32. Tenha consciência do espaço físico e emocional que você ocupa, e não tome mais espaço do que você precisa.

Use sua cota justa de tempo de fala nas suas conversas, dê tanto às relações quanto você recebe, não sente com suas pernas abertas de modo que outras pessoas não consigam sentar confortavelmente ao seu lado, etc.

33. Faça o que deve ser feito com relação a desigualdade de renda.

Mulheres ainda ganham 77% do que homens ganham. Se você está em uma posição que te possibilite fazer isso, considere doar simbolicamente 23% do seu salário para causas orientadas à justiça social. Se 23% parece muito para você, é simplesmente porque é muito mesmo, e também é muito para mulheres que não tem escolha de receber esse valor ou não.

34. Adquira o hábito de tratar a sua masculinidade como um privilégio não-merecido que você precisa trabalhar ativamente para ceder ao invés de tratar a feminilidade como uma desvantagem não-merecida que as mulheres precisam batalhar para superar.

35. Auto-identifique-se como feminista.

Fale sobre feminismo como uma crença natural, normal, incontestável, porque deveria ser mesmo. Não se restrinja usando termos como “humanista” ou “aliado feminista” que reforçam a ideia de que a palavra Feminismo por si só é algo assustador.

As ferramentas 15 – 27 são c/o Lindsay Ulrich. As outras c/o Pamela Clark.

Reproduzido com permissão de PamelaClark.tumblr.com.

 

 

a mulher sem lugar

não tinha lugar nenhum essa mulher. já não era púbere, e já ultrapassara os olhares que uma mulher que ainda não sabe do seu sexo arrasta por cima de seus ombros. não era esposa, não estava num lugar fácil de sexualmente disponível. não era mulher madura, dessas que se diz que já está feita-feita, feita-estável, feita-com-a-vida-ganha.

era disponível, sim. se segurava sobre as duas pernas, mais ou menos, mais do que muita gente e menos do que muitas tantas outras. se sustentava da melhor forma que podia.

não era mulher fácil de entender – não tinha lugar, e por não ter lugar não era fácil encará-la. porque quem encara uma mulher encara sob um frame de análise, e essa mulher era fora-da-caixa. “fora-da-caixa”, louca, louquinha, doida, lugares marginais e limítrofes onde empurramos o que a civilização não comporta.

não era mulher-macho: algumas pessoas a acusavam de ser masculina, de ter abandonado a sacralidade de seu feminino – sim, tentavam de todas as formas encaixá-la num fantasma que arredonda as arestas da realidade e controla os mais ínfimos detalhes da sensibilidade humana com o fim de castrá-los e torná-los inofensivo ao conforto dos outros.

tampouco era nutriz. tampouco era megera. tampouco era donzela, infinitamente paciente, tolerante, magnânima. não tinha rosto reconhecível e por isso as pessoas se indispunham com ela. como assim uma mulher sem lugar? será uma mulher-não-mulher?

que direito ela tem de ser uma mulher-não-mulher? muitos tentaram usar esse espaço dificil de definir que era o seu eu para colonizá-lo, plantar em seu rosto suas expectativas de amor-narciso, torná-la legível como são (ou parecem ser) as outras mulheres. com mais sorrisos, mais cachos, mais centímetros de saia, menos sobrancelhas, menos músculos, menos lágrimas.

por ser mulher-sem-lugar era como uma força da natureza: tentavam analogias tortas que nunca chegavam a alcançá-la, assim como o mais poderoso zeus jamais chega alcança o estrombo do trovão.

e tudo ao redor da mulher sem lugar era uma nuvem de violência onde as pessoas descarregavam suas feridas de desamor mais amargas: a mulher que não me entende, a mulher que não me obedece, a mulher que não se entrega, a mulher que não aceita, a mulher que não se adequa, a mulher que não me deseja. a mulher que não me ama.

mas veja só que curioso: a mulher sem lugar também não era mulher-vítima.

ela olhou para todas essas feridas como quem reconhece na ferida do outro a sua própria. pois não ter lugar a vida inteira foi como ter um pós doutorado em não ser entendida, aceita, amada. e sorriu para cada pedra nova que lhe atiravam. respirou fundo, recolheu cada pedra, devolveu cuidadosamente a quem cada uma delas pertencia. e continuou caminhando, pois a mulher era sem lugar mas tinha um caminho que lhe era próprio.

Sobre violência, auto violência e limites emocionais

Pra falar de relacionamentos, acho importante definir o que entendo por violência: é quando alguém viola os limites físicos ou emocionais de outra pessoa, independentemente se é intencionalmente ou acidentalmente.

Existem alguns limites que são acordados socialmente, como as leis e os costumes. A interpretação destes pode variar enormemente, mudar entre os grupos de pessoas e também ao longo do tempo. Existem também os limites emocionais pessoais de cada um, que variam mais ainda, dependendo da história de formação de cada indivíduo. Cada indivíduo possui um repertório único.

A mudança acontece a partir do esticamento desses limites – o que acontece ao aumentar o próprio repertório, assumir riscos, lidar com suas consequências e descobrir novos limites. Essa mudança faz parte do nosso crescimento e adaptação ao mundo, e pode ser bastante recompensadora. Ela pode acontecer de forma não violenta, através da negociação e da adaptação, ou violenta, através da imposição. Aprender a mudar, e também a se proteger, fazem parte da vida.

Dessa forma, relacionar-se é sempre um risco de se machucar, assim como andar de bicicleta é sempre um risco de cair. Relacionar-se também é um risco de crescer. A prática e o crescimento são possíveis ao aprender a gerenciar este risco e as eventuais feridas. É um aprendizado gradual: conhecer os próprios limites, aprender a comunicá-los e a negociá-los, expandir os próprios limites sem causar feridas muito difíceis de tolerar.

Esperar que o outro respeite limites não comunicados é uma fantasia, como esperar que o taxi te leve para algum lugar sem avisar o endereço para o motorista. Essa comunicação pode ser verbal ou não verbal, mas para que funcione, precisa ser clara. Não comunicar o próprio limite quando este está sendo violado é auto violência – quando não o conhecemos muito bem ou não sabemos expressá-lo, é uma auto violência acidental, acontece.

Comunicar o próprio limite emocional não é violência contra o outro – inclusive pode ser feito com muito respeito e carinho, e construir muito mais as bases de uma relação respeitosa e agradável do que simplesmente calar.

Comunicar de forma passivo-agressiva não é uma opção adequada: fere demais e comunica de menos. Às vezes, é a única forma possível, seja por causa do contexto, seja por causa da estrutura interna da pessoa. É muitas vezes mais cômodo não comunicar o limite, ou não comunicá-lo direito, e manter-se na inércia. Esta comodidade também tem um custo, e bancá-lo ou não é uma escolha de cada um.

Quanto maiores forem as diferenças em repertório, mais será necessário diálogo para que um relacionamento possa funcionar: pessoas com histórias totalmente diferentes, carreiras totalmente diferentes, expectativas de vida totalmente diferentes podem se relacionar. Provavelmente vai dar muito mais trabalho.

Ainda que seja difícil que duas pessoas tenham exatamente a mesma interpretação sobre o que são limites razoáveis em um relacionamento qualquer, se a pessoa não respeita nenhum ou muito poucos limites do senso comum, provavelmente seja mais por má-fé do que por falta de repertório. Se relacionar com alguém assim é um risco alto, que pode ou não valer a pena. Provavelmente não valerá, pois pode se tratar de uma pessoa bastante incapaz de respeitar os limites que são comunicados.

A capacidade de negociar por esses limites é tão essencial para se relacionar quanto comunicá-los. Uma pessoa com limites “demais” pode inviabilizar um relacionamento e indicar uma pessoa que tem baixa capacidade de negociar, de abrir mão de algumas condições em prol de outras mais importantes, de tolerar e organizar os próprios sentimentos. Uma pessoa com limites “de menos” também pode inviabilizar um relacionamento e indicar uma pessoa que não consegue manter relacionamentos simétricos, mas apenas através da submissão e da simbiose, com dificuldade de dar suporte e “parceria” ao(s) seu(s) parceiro(s). É possível também ter limites “demais” em uma área da vida e “de menos” em outra: a viabilidade do relacionamento depende de cada um entender o quanto essas características no outro pesam para si.

Respeitar os limites nem sempre é fácil. Demanda aprendizado e prática, e nem sempre o parceiro termina respeitando alguns limites comunicados – intencionalmente ou não. Esperar que o outro se adapte é uma opção. Aceitar que o outro não pode ou não quer mudar, e repensar qual a importância deste limite ser respeitado no contexto total do relacionamento é outra opção. Se afastar ou romper o relacionamento também é uma opção, principalmente se esta violação é contra um limite que nos é vital ou vital para o relacionamento, e se é feita intencionalmente.

Responsabilizar o outro por violar um limite comunicado é importante. Culpá-lo pelo que se sente em relação a isso, contudo, é algo mais complicado, já que o gerenciamento das próprias emoções compete apenas a quem as sente, mesmo que se conte com a ajuda de outras pessoas.

Às vezes, a pessoa não é capaz de dar conta das próprias emoções, e seus próprios limites são continuamente violados sem que ela consiga fazer nada a respeito. Isso é algo que acontece, e se afastar da causa externa dessas emoções pode ser uma saída nesse caso. Ninguém é obrigado a “superar” os próprios limites para comportar o outro, por mais que este viole nossos limites sem ter intenção de machucar. Superá-los pode até valer a pena, mas deve ser uma decisão pessoal.

A disponibilidade dos lados em trabalhar nessas dificuldades pode determinar o bom funcionamento de um relacionamento, mas também pode não ser o suficiente. Às vezes uma das partes desiste, e nem sempre é possível localizar o motivo exato. Isso não quer dizer que não temos valor, apenas que aquela negociação específica não deu certo. Acontece com muita frequencia: muitas vezes apostamos todas as nossas fichas em um único acordo quando existem várias outras negociações possíveis no mundo. A frustração dói e pode levar algum tempo pra lidar com ela, mas é apenas isso: uma frustração, num mundo cheio de possibilidades. Treinar-se para enxergar novas possibilidades pode, inclusive, ser um jeito de superar esta frustração.

Estes pensamentos têm me ajudado a organizar os relacionamentos conjugais, profissionais, familiares, e de outros tipos. Ainda tem bastante coisa que quero escrever sobre esse assunto, mas vou deixar pra outra oportunidade.

Verás que um filho teu não foge a que luta?

Vi o slogan “Verás que um filho teu não foge à luta” em diversos cartazes nas manifestações que fui até agora (fui no quinto grande ato contra o aumento da passagem do transporte público e em várias outras daí pra frente – algumas delas por acaso, por trabalhar perto da Av. Paulista).

Fiquei constrangida não apenas por acreditar que um sentimento nacionalista é muitas vezes desprovido de conteúdo prático e que tem um histórico complicado relacionado a regimes totalitários e a um auê meio “pão e circo”, bastante alinhado com o começo dos jogos da Copa das Confederações. Mas também por entender que a própria ideia de “luta” acabou tendo o seu significado diluído em meio as manifestações, assim como outros símbolos que foram reproduzidos em massa por pessoas que não dominavam seu significado, como por exemplo, a máscara do V de Vingança.

Isso é uma característica da cultura de massa e não tem nada de errado com isso – referências vindas de TV ou propagandas permeiam com força os discursos políticos repetidos nessa última semana – o único problema que eu vejo é quando este comportamento de repetir discursos que não entendemos bem passa a ser mais importante do que o trabalho de mobilização, discussão e ação de quem já está em movimentos e associações populares há tempo, pensando junto com as comunidades – e sim, com os partidos e governos. O que não apenas desmerece o trabalho destes grupos de pessoas sem qualquer base, mas significa desperdiçar energia em um transe coletivo ao invés de somar esforços e evitar “reinventar a roda” para alcançar os mesmos objetivos. Assim, me pergunto qual gigante de fato acordou.

Uma democracia representativa é feita de instituições que a mantém em funcionamento. Votamos para determinados cargos nestas instituições mas em larga medida desconhecemos qual o papel delas e sequer acompanhamos o trabalho que elas realizam (isso quando lembramos para quem votamos), a não ser, raramente, através de mídias de massa, que possuem um discurso enviesado pelo alinhamento político de sua linha editorial – acho que nessa altura do campeonato, boa parte das pessoas já percebeu que não existe exatamente uma “verdade” única inexorável.

Verdade que, aliás, é um conceito bastante escorregadio: aprendemos em geral “uma versão” da História no colégio, a “oficial”, o que nos faz pensar que a Verdade é uma entidade a ser alcançada por grandes cientistas, ou como vemos ultimamente, pelos grandes meios de comunicação. Não aprendemos a debater a história, olhá-la sob novas leituras, implicações, através do olhar de diferentes personagens. Ou seja, não aprendemos a fazer parte do processo de construir conhecimento. Vamos ser honestos – sequer aprendemos direito essa versão “aprovada” da História. Assim, não é de se espantar sobre como as pessoas ainda tem dificuldade de filtrar informações que recebem, de debater diferentes pontos de vista, de ouvir vozes diferentes sobre um mesmo assunto. Vemos muitos egos inflados e inflexíveis frente a alguém que apenas insinue que estão errados – mas nos esquecemos que a construção de conhecimento é coletiva e contínua, outra coisa que raramente aprendemos nas escolas (o que nos faz pensar não somente em cobrar investimento em educação, mas entender em que tipo educação exatamente queremos investir).

Em resumo, não estamos muito bem preparados para “lutar” politicamente, o que quer que isso signifique nos dias de hoje numa democracia mais ou menos recente e mergulhados nos tempos da Internet. Não é um problema – as redes sociais têm um potencial educativo tremendo e podemos consertar essa falha nossa com o tempo. (guardem esse termo). Prosseguindo:

Luta, pelo que tenho entendido de muita gente que está nas ruas, tem significado:

– Partir pra porrada – com militantes de partidos ou com a polícia, ou qualquer um que represente o “inimigo” – tem o seu papel quando se tem consciência de quem exatamente é o “inimigo”, por que esse “inimigo” merece um ataque direto, e entender que muitas vezes isso a) infringe a lei e b) pode não ter nenhum resultado prático e c) toda aquela noção sobre quem é o inimigo e seu porque pode simplesmente ser maniqueísta demais e não ser exatamente muito honesta, mas sim resultado de uma raiva não muito refletida.

Teve gente que botou fogo em acampamento de sem teto, teve gente que atacou bancos, teve gente que roubou lojas, teve gente que ateou fogo ao Itamaraty – tudo isso com ou sem justificativa. Se quem fez isso refletiu ou não agora não importa – o importante é que a gente reflita, escapando de atalhos como “é claro que isso não faz sentido”. Existem movimentos, por exemplo, que defendem a depredação de patrimônio com uma justificativa bastante politizada e coerente por trás. Você pode até não concordar com isso, mas vale a pena entender o que esses “vândalos” têm a acrescentar ao debate.

– Não sair das ruas e não parar de denunciar o que está “errado”. O que é válido, afinal, temos uma utilização bastante ineficiente do espaço público, e com isso se corroem as relações nas cidades e torna as ruas um lugar de medo e de incompreensão – ocupar as ruas significa não somente fazer um apelo às mídias e ao governo, mas também recuperar o fio dessas relações interpessoais e construir redes de entendimento e de paz. É importante fazê-lo fora das redes sociais, fazê-lo pessoalmente, pois o relacionamento pessoal inclui nuances que não devem estar de fora da nossa leitura de mundo – nossas reações físicas e emocionais à socialização pessoal e ao conflito, por exemplo – e é saudável estar em convívio com este lado nosso.

Mas novamente, pode ser um desperdício quando não buscamos as soluções práticas, ignoramos o trabalho de quem tem buscado essas soluções – isso quando não desmerecemos francamente o trabalho dos políticos sob frases de efeito como “político é tudo corrupto” ou “não prestam para nada mesmo” sem sequer procurar saber sobre o trabalho que têm feito.

Não sair do Facebook para denunciar o que está “errado”. Além de tudo o que está falado acima, vale lembrar que o Facebook não é exatamente uma mídia livre; trata-se de uma entidade privada que segue um código de uso e critérios de bloqueio de informação baseados em grande medida sobre esse código – que você não leu ou não entendeu. A liberdade da Internet mesmo é relativa, principalmente entre usuários primários como a maioria de nós, que estamos frequentemente com nossos dados expostos e monitorados sobre o que escrevemos. Além disso, vale repetir: conhecimento é uma construção coletiva, e ainda mais verdadeiro com as redes sociais, isso significa que você faz parte dessa construção, com a dor e a delícia que isso significa. Isso implica que o que você constrói ou reproduz tem um efeito sobre o mundo a sua volta – e esse efeito pode ser uma construção bonita quanto pura e simplesmente um pânico desenfreado. Você, de certa forma, enquanto comunicador (todos somos), tem co-responsabilidade sobre o que as pessoas entendem da sua fala.

– Mas além desses três jeitos, como mais eu posso “lutar”? Você pode procurar, por exemplo, os movimentos sociais e as associações de bairro. Você pode se informar sobre a agenda e ir nas discussões da assembléia legislativa da sua cidade também. Um guia muito mais detalhado pode ser encontrado no Mootiro Maps – um mapa colaborativo das comunidades, organizações, recursos e necessidades locais. (Por colaborativo, quer dizer: você também pode construir com a construção deste mapa). Mas tem muito mais além desse meio – é importante que a gente não dependa apenas de uma fonte de informação.

Você também pode usar os canais oficiais do governo para buscar informação – o site da câmara dos vereadores, dos deputados, do senado, a tv câmara, o diário oficial, são repletos de informações em primeira mão sobre o que acontece por lá. Procure conhecer o Plano Diretor da sua cidade, e se possível, comparecer às reuniões de discussão deste plano. Lá você provavelmente conhecerá ainda mais associações e movimentos sociais.

Entendo como é difícil participar destas associações e absorver esse tanto de informação numa rotina de trabalho e de deslocamento que nos exige a maior parte do nosso dia e nos esgota física e mentalmente. Isso também é um tema que vale muito ser debatido em maior profundidade – o quanto a nossa carga horária de trabalho e a ineficiência dos transportes contribui com a baixa educação e atuação política de grande parte da população. Ao mesmo tempo, é uma tarefa nossa tanto corrigir as nossas falhas em formação política, descobrir formas de simplificar esse processo, sermos atuantes no mundo que nos cerca, mas também manter o resto da vida andando (as contas pagas, a louça lavada). Não tenho uma solução para este dilema, mas entendo que muitas vezes caímos numa desculpa fácil de “falta de tempo” para disfarçar outros fatores que nos impedem de alcançar nossos objetivos – sejam eles conseguir uma atuação política mais eficiente quanto organizar uma festa no final do ano.

Por que eu disse lá em cima para segurar essa frase “Com o tempo”: porque, com o afã da comoção nacional em torno dos protestos e com a proximidade da Copa do Mundo e das eleições, estamos tomados por um senso de urgência que não ajuda com que pensemos com cuidado sobre as causas que abraçamos. Isso agrava o clima de pânico, desespero e guerra que tanto queremos combater nestas manifestações. Ao mesmo tempo, somos frequentemente levados por este clima, o reproduzimos na melhor das intenções, e não conseguimos manter o eixo para agir de forma coerente e precisa. Não nos permitimos descanso, e também não nos permitimos reflexão, revisão – e sim, perdão – dos nossos próprios erros. E dos outros.

Isso também é uma característica dos nossos tempos atuais: tempo, reflexão, análise, descanso, humildade, cuidado e paciência são todas mercadorias em falta no mercado dos sentimentos contemporâneos. Podemos colocar o capitalismo e as mídias digitais onipresentes como responsáveis por isso, mas veja só – nós também somos. Você também escolhe, em grande medida, o que consumir e produzir, não apenas em termos de bens mas também de informação – e sim, de comportamentos e emoções.

Ironicamente, são recursos, habilidades e comportamentos necessários para se construir empreitadas realmente duradouras. Darwin levou a vida inteira para criar a sua teoria da evolução. Tenho entendido ultimamente, que se tem dois atos realmente subversivos que eu deva fazer essa semana, estes são: ouvir mais do que falar, e descansar mais do que desperdiçar minha energia em tarefas infrutíferas. Mas esse é o meu ritmo, e é o que meu corpo e minha mente me pedem para agora. Pode ser que daqui uma semana eu mude completamente de ideia, assim como minhas ideias eram completamente diferentes há uma semana atrás – numa democracia a gente pode se dar o luxo de nos permitir isso.

*Este post faz parte da Blogagem Coletiva pela Democracia – Seria bem legal que, quem puder, poste nos comentários links ou referências de associações, movimentos, reuniões de discussão política, agendas de revisão de plano diretor, espaços de ativismo, e o que mais acharem que possa ser útil pra quem quer se aprofundar na discussão e atuação política 🙂